A Kaballah

KABALLAH

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1 - O que você sabe sobre Kaballah?

Além do medo pelo novo e um certo distanciamento daquilo que exige conflitos de idéias, vê-se uma ignorância quase completa sobre o assunto Kaballah. É preciso que se faça um esclarecimento geral a fim de eliminar esses inconvenientes. Mesmo porque os estudos Cabalísticos demandam prática, assiduidade, meditação e pesquisa; coisas que não nos são oferecidas em outros segmentos religiosos. Prometemos que ao terminar de ler este artigo seu conceito sobre Kaballah terá mudado e seu interesse será maior.
Kaballah significa, literalmente, aquilo que chega até uma pessoa; como tratamos de sabedoria podemos interpretar o termo como: "o conhecimento que veio até nós". A melhor definição para Kaballah é: "concepção metafísica da Criação".
A Kaballah trata de conceitos sobre Deus; sobre a criação do Universo físico; sobre a criação de todos os seres, inclusive nós, os seres humanos. Estuda as energias primordiais que deram origem a Lei e Ordem no Universo, representadas nos Arcanjos e nos Anjos; estuda os diversos planos de existência dos Seres, bem como o inter-relacionamento que existe entre eles e o próprio Universo do qual fazem parte inseparáveis. Enfoca o plano nosso de existência física; a morte ou transição do espírito; a vida no Plano Astral; os contatos entres seres que possuem ou não um corpo físico, na chamada mediunidade. Estuda Magia prática; comunicação com o Astral através de pontos riscados; invocação de seres diversos; influencias de nascimento através da Angelologia Cabalística; Elementais; formas pensamentos. Aprecia também o Tarô como forma de crescimento interior e de geração de causas e efeitos.
A Kaballah é o único sistema de estudo sobre o Ser, que elabora uma origem, um objetivo e um fim para a existência de tudo.

2 – A visão histórica
Entende-se por Kaballah (ou ainda Kabalah, Cabala, Cabalá) a corrente mística do judaísmo Em hebraico e em árabe significa "recebimento", "aceitação". A princípio o termo designa a tradição oral ou Torah Shebeal Pe, transmitida paralelamente a lei escrita. No século XII, entretanto, foi adotada pelos místicos para se referir a uma suposta tradição exotérica existente desde os primeiros tempos. É esforço da Kaballah atingir um contato vital e intenso com a divindade por meio de uma consciência imediata e comunhão. No nível filosófico, procura explicar a relação entre a divindade e a criação, a existência do bem e do mal, e mostrar ao caminho da perfeição espiritual. Segundo os estudiosos modernos, a Kaballah parece ter sido influenciada por outras correntes espirituais não-judaicas como o Gnosticoismo e o Neoplatonismo. Em relação a essa primeira corrente de pensamento, suas influências são claras em muitos dos escritos da comunidade essênia do Mar Morto (séc. III a.E.C - I d.E.C), como por exemplo os conceitos de "Filhos das Luz" e "Reino das Trevas".

A tradição atribui a Melquisedec, rei de Salém, a iniciação de Abraão no conhecimento dos ensinamentos esotéricos e exotéricos no que concerne ao homem, ao universo e a Deus. Segundo se diz, o eterno ensinou primeiramente esse conhecimento aos anjos. Após o episódio da queda do homem, se compadeceu de Adão, enviando o arcanjo Ratziel (em hebraico "segredos de deus") para entregar-lhe um livro com o qual o homem poderia ascender novamente ao Paraíso e recordar, enquanto imagem de Deus, o observador do espelho da existência que é e que pode perceber o rosto divino. A Kaballah seria a versão oral desse livro.

Historicamente, as primeiras manifestações dos conceitos podem ser encontrados no Maaseh Merkevah ("Livro do Carro"), mencionado no livro apócrifo de Enoch ( provavelmente do séc II d.E.C.), onde a divindade é a causa de tudo, estando acima do o universo. Explica-se sobre o mundo das coisas e suas forças misteriosas e seu sistema metafísico. A constatação da existência da divindade é mais física do que espiritual, revestindo-se na teoria da dimensões de Deus ou Shiur Komah, fruto, por sua vez das influências antropormóficas do Gnosticismo do séc II. São dimensões metafóricas onde o homem contém todo o universo ainda que pequeno diante da grandiosidade divina. Tais imagens não são atribuídas a Deus mas a um demiurgo, o criador, a projeção física da essência divina sistematizada na imagem do homem primordial, o Adam Kadmon.

No séc. II d. E. C. surge, de autoria desconhecida, o Sefer Yetzirah ("Livro da Criação"), que trata da origem e leis do universo. Os vários planos da criação formam 10 esferas, as sephirot (plural do hebraico sephirah, "cifras"). O espírito torna-se palavra formando a primeira esfera e, por meio do sopro, a segunda esfera, que dele emana, cria, através da combinação de letras e números as demais esferas; a água é a terceira, que produz a terra, o barro, as trevas, os elementos rudes; o fogo é a quarta; as seis últimas são os quatro pontos cardeais e os dois pólos. Também diz o Sefer Yetzirah que existem 32 caminhos místicos constituídos pelas 22 letras do alfabeto hebraico e os 10 algarismos, que podem ser combinados por meio da interpretação do sentido oculto das palavras (do grego, notarikón), como também da atribuição de valores numéricos às mesmas (guematria) e da manipulação das palavras por meio de anagramas (temurah-"permuta’)

A Kaballah começou a se firmar definindo-se como sistema filosófico-religioso no século XII nas comunidades judaicas da Península Ibérica, em especial na Espanha como também na região da Provença, na França. Alguns estudiosos acreditam que esse desenvolvimento tenha ocorrido por dois motivos: as perseguições religiosas nos territórios cristãos da Espanha e na Provença, o que permitiu se desenvolver o misticismo como uma forma de busca por soluções fantásticas num período de intolerância e, do outro lado, devido ao contato e fértil troca de idéias entre judeus e muçulmanos na Espanha e Portugal durante o domínio Islâmico, a chamada "Idade de Ouro". No entanto, o pensamento judaico sempre se mostrou especulativo e interpretativo no que se refere aos textos religiosos, neles buscando alegorias, metáforas e o sentido oculto (Sitrei Torah- "os segredos da Torah"). Sem a perda do seu valor monoteísta, a Kaballah assimila a noção de panteísmo porém, não entende a divindade como atributo de todas as coisas mas a extensão de Deus em todas as formas da criação.

3 - Limitações
Esta é a parte mais importante de tudo pois os estudos Cabalísticos não tem limites no sentido de terem fim, apenas nossa compreensão dos fatos pode ter chegado a um limite que pensemos já ter visto tudo.
Pela Kaballah este não é o único plano de existência possível, nem o mais elevado; ela considera que quando assimilamos as possibilidades de vida de um determinado plano, partimos para outro, indefinidamente. Também não sofre limites no sentido de pesquisa; o Cabalista é um eterno ponto de interrogação. O Cabalista sabe que sabe pouco e por isso lança-se na busca do saber onde quer que esteja, e isto evidencia em si mesmo um espírito nômade, crítico, exigente.
Não aceita as imposições do medo de forças Satânicas, nem se presta a subserviência Divina, pois acredita que a maior força de Deus está em si mesmo e na sua expressão, bem como em si se revelam todos os atos satânicos, destrutivos e trevosos.
Luz e Trevas são partes do único e mesmo Deus, e cada um de nós nada mais é do que uma das infinitas expressões do Todo.
O Cabalista autêntico prescinde de um Salvador pessoal; não acredita na interferência Divina nos problemas humanos; nem nos milagres dos chamados Santos; nem nos destinos da Humanidade por seres de outras dimensões; menos ainda nos insistentes Resgates interplanetários.
Mas, sabe que se houver um plano maior de consciência, estará preparado para ele através de seu crescimento e evolução, somente.

4 - Origem
A forma mais conhecida deste estudo está no Antigo Testamento, nos cinco primeiros livros atribuídos a Moisés, chamados Pentateuco. Mas nem por isso a Kaballah é unicamente Hebraica, ou Judaica e acreditar nisso pode levar pessoas a sentirem-se privilegiadas, escolhidas. Qualquer povo, ou pessoa, que avente uma teoria livre e completa sobre a criação do Universo, estará criando uma Kaballah. Deste modo ficam claras as diversas Kaballahs existentes: Kaballah Chinesa, Cristã, Umbandista, Hebraica, Mesopotâmica, Egípcia, etc.
Mas, atente para o fato de que o cristão, o crente, o religioso, o místico de modo geral, não conhece nenhuma destas formas de estudos Cabalísticos porque os dirigentes religiosos e esotéricos escondem estes ensinamentos.
Sabem estes dirigentes que, devido as Kaballahs tratarem de estudos profundos sobre o Ser, provocam conflitos de idéias com aquelas que são ensinadas em seus cultos e ensinamentos, os quais são restritos, escravizantes, limitadores.

5 - Literalmente
Por volta de 1275, é escrito o Zohar ("Esplendor"), obra máxima da Kaballah, atribuído a Shimon ben Yochai ou ainda, a Moshe ben Shem Tov. Não se trata de uma obra uniforme, antes uma compilação de várias obras, muitas delas perdidas. No Zohar, a essência divina espiritual- o Ein Sof, se desconhece a si mesma, até que suas emanações se constituam em atributos que permitem percebê-la, através de dez sephirot. Não são as mesmas sephirot do Sefer Yetzirah, que são esferas do mundo criado, mas projeções dos atributos divinos.

No Zohar, as sephirot assumem uma imagem antropomórfica, configurando a Árvore da Vida, revelando um processo universal de interação equilibrada e conformando o Adam Kadmon, o homem perfeito, o Messias. A primeira sefirah é denominada Keter ("coroa"), o próprio Ein Sof concentrado em si mesmo. Dele emanam outras duas Chochmah ("sabedoria"), de energia masculina e ativa, e Binah ("compreensão") de origem feminina e passiva. Da fusão de ambas nasce Daat ("conhecimento"). A quarta e quinta sephirot, são os braços de Deus Chessed ("graça"), braço direito, representando o Amor e a outra, Guevurah ("heroísmo"), o braço esquerdo, representando o Rigor. Ambas se entrelaçam no conceito de Justiça e Misericórdia. A sexta sephirah é o centro chamada Tifereth ("beleza"). Uma tríade é formada por outras sephirot; Netzah ("eternidade"), Hod ("glória") e Yessod-("fundamento", "base").A décima é a síntese das demais Malkut ("reino"). O Zohar preocupa-se com os níveis da criação e de suas emanações; Olam Azilut ou o "Mundo das Emanações", o Olam Beriah, "Mundo da Criação"( dos espíritos puros), Olam Yestzirah , ou o "Mundo da Formação" e Olam Assiah, "Mundo da Ação" ou seja o mundo material. Na doutrina exposta, o universo é uma obra de amor, uma emanação porém mínima do próprio Ein Sof. O homem é o centro do universo, sua essência está na alma, que desce à Terra para habitar um corpo. O caminho da alma em direção a Deus se expressa no conceito de Teshuvah (volta, arrependimento), que se refere à prece e à conduta. Anjos e demônios, constantemente citados no Zohar, constituiriam, na verdade, em metáforas o do comportamento ético mas constituem um dos fundos éticos e esotéricos da Kaballah. O conhecimento dos mundos descritos é recompensa pelo mérito individual, isto é, do trabalho interior. A tarefa do cabalista, fundamento de todo desenvolvimento pessoal, é ajudar na unificação desses mundos, procurando a união entre aquilo que está em cima com aquilo que está em baixo, que se obtém por meio da contemplação, devoção e ação. Pode também implicar no contato com outras tradições. Assim, quando o místico judeu conversa com um sufi muçulmano ou um sábio monge cristão descobre as mesma realidade sob teorias e práticas diferentes.

6 - Finalizando
Quem fizer da Kaballah a sua religião no sentido literal, estará cometendo o mesmo pecado original de todas as religiões: assumindo dogmas e posturas fixas, medos e limitações, dependências e preconceitos; para este a Kaballah terá vida curta e será inóspita.
A Kaballah é para ser vivida em toda plenitude, tanto das dúvidas como das descobertas. Assim, contestar o que quer que seja, mesmo a Deus, é permitido ao Cabalista, e não se constitui pecado; os maiores pecados são a ignorância e o medo.

"O Cabalista olha para o universo como uma coisa única, e a sua individualidade está na mesma proporção de um pequeno movimento ondulatório no meio de um grande oceano"

Compilado por   Luiz Paulo Marques de Souza   e    Alexei Bueno.

Bibliografia consultada:
A CABALA- Z’ev Ben Shimon Halevi- Edições DelPrado,1998
AS RELIGIÕES ONTEM E HOJE- Hugo Schilesinger e Padre Humberto Porto. Ed. Paulinas 1982
ENCICLOPÉDIA BRITTANICA, 1977