O conhecimento esotérico através dos séculos

O conhecimento esotérico através dos séculos

Antes da explicação histórica do esoterismo, primeiro é importante fazer uma divisão, bem como uma diferenciação, bastante clara e significativa. O esoterismo pode ser abordado e esclarecido a partir de dois pontos de vista: o primeiro é o filosófico-científico, que explica, com a ajuda da filosofia e da teologia, o esoterismo como parte do desenvolvimento mental do ser humano. A outra visão é mais orientada para o mágico-religioso e acrescenta à observação filosófico-científica o aspecto da numinosidade que, em última análise, representa o que é difícil de ser compreendido e explicado. Essa visão exige a disposição de aceitar o que é inexplicável, os paradoxos, dando-os como verdadeiros. Além disso, exige a compreensão de que há certas coisas que de fato não podem ser entendidas. Elas podem ser percebidas como fenômenos e talvez possamos lidar com essas aparições dentro de certos planos; contudo, temos desde o início de renunciar à tentação de tentar enquadrá-las em qualquer setor que vá de encontro ao conceito de ciência tal como é aceito pela sociedade moderna.

Todo esboço histórico começa com a pergunta: Onde fica o começo? No esoterismo não é diferente. Mas é exatamente nele que temos os dois pontos de vista, o filosófico e o mágico, tentando responder à pergunta, cada um a sua maneira. O filósofo ou cientista, busca as fontes e os fatos, os primeiros testemunhos escritos, as descobertas arqueológicas e coisas afins, e estabelecem o início a partir da existência de algo plausível que possa ser provado. Quem se sente mais inclinado para o lado mágico, prefere procurar por traços ocultos, por pontos de referência, que não são reconhecíveis de imediato, que se perdem nos mitos e, provavelmente, nas tramas do raciocínio científico.

Segundo reza a tradição, existiu, em alguma parte do Oceano Atlântico, um continente, uma ilha, cujo nome era Atlântida e cujos habitantes possuíam uma cultura superdesenvolvida, orientada para a magia. Há cerca de doze mi anos (as estimativas variam de acordo com as diversas fontes) essa ilha, Atlântida, teria sido submerso do dia para a noite em conseqüência de uma catástrofe natural. A primeira notícia que se tem sobre a Atlântida encontra-se nas obras do filósofo grego Platão, que, por sua vez, se fundamenta em antigos relatórios dos sacerdotes egípcios. Apesar de várias investigações, até hoje não pôde ser cientificamente confirmado se esse continente de fato existiu ou não.

Segundo a tradição oral, a grande cultura dos atlantes era fruto do seu imenso conhecimento mágico. O fato de esse conhecimento ter cada vez mais se corrompido com o passar do tempo, e ter sido cada vez mais mal-empregado teria sido, em última análise, a causa da submersão da Atlântida. As forças que os atlantes evocavam por meio da magia, mas que depois deixaram de usar de maneira correta, se voltaram finalmente contra eles mesmos e provocaram sua queda. Ao que se diz, os atlantes também exerceram determinada influência em certos setores políticos e culturais do Oceano Atlântico; portanto, na atual América Central, na Irlanda e na Grã-Bretanha ocidental, além de em regiões mais distantes, importantes para o nosso tema, como no atual Egito. Para o Egito teriam fugido os atlantes que conseguiram sobreviver à tragédia a fim de, com a ajuda de seus poderes mágicos, recomeçar sua cultura. Esta poderia ser uma resposta para os modernos egiptólogos, que até hoje se vêem diante de um dilema: por que a cultura egípcia surgiu tão subitamente do nada e por que se mantém estável através dos séculos?

A Atlântida desapareceu tragada pelos mares, ficando assim impossível manter um contato direto com ela. Portanto, temos de nos dirigir a um local que, com certa probabilidade, se aproxime das origens; temos de ir para onde nos envia este "A" que, para o esoterismo ocidental, significa Atlântida. Esse local, como mencionei, é o Egito. Não existe lugar nenhum que tenha estimulado tanto a fantasia do mundo ocidental e que tenha levado a tantas especulações como o antigo Egito. Não devemos agradecer esse fato somente às pirâmides, ou talvez à ainda misteriosa Esfinge, que Plutarco associa ao segredo do conhecimento esotérico. Muito mais interesse despertaram as antigas escolas dos sacerdotes, rigidamente organizadas; pois, em todas as épocas, sempre se acreditou que elas guardavam todos os segredos do mundo, revelando-os somente aos que eram escolhidos para serem iniciados.

Eis aí novamente mencionada a palavra Iniciação, que tão importante papel desempenha no esoterismo. Iniciação não tem semelhança alguma com conhecimento, como muitos supõem e, além disse, o conhecimento não se relaciona com a iniciação. Há pessoas que conseguiram acumular o maior conhecimento possível sem serem iniciadas e, vice-versa, há iniciados cujos conhecimentos, se postos à prova, talvez não bastassem para que fossem aprovados em um exame de nível médio. Quero definir iniciação como uma modificação e uma ampliação da consciência e do estado de ser, onde o fato principal é não existir retrocesso nesse processo. O conhecimento pode ser esquecido, mas não a iniciação. Além disso, pode-se obter o conhecimento por si mesmo, ao passo que a iniciação sempre depende de algo exterior, como concordam todos os esoteristas.

Qualquer pessoa pode preparar-se para uma iniciação, mas quanto a obtê-la depende, em última análise, não da própria pessoa, mas de uma instância mais elevada ou transcendental fora do seu âmbito de influência, que irá julgar seu desenvolvimento e seu grau de amadurecimento pessoal. Isto não quer dizer que os não-iniciados tenham menos valor do que aqueles que o são. Na minha opinião, todos os homens são chamados à iniciação, porém o momento em que a alcançam é diferente. Sendo assim, a iniciação se assemelha a uma prova, e isto é válido principalmente em nossos dias, quando as verdadeiras escolas de iniciação se tomaram raras e são secretas.

Os egiptólogos sempre apresentaram a cultura do Egito antigo levando em conta seus túmulos, sarcófagos, suas cidades mortuárias e suas múmias, enfatizando o culto aos mortos, o qual visava assegurar aos homens uma vida duradoura depois da morte. Atualmente, o texto mais usado para consubstanciar essas afirmações é O Livro Egípcio dos Mortos. A palavra egípcia para morte no título desse livro também pode ser traduzida por iniciação. Consequentemente, a antiga cultura egípcia não seria um culto aos mortos, mas um culto à iniciação. Além disso, O Livro Egípcio dos Mortos não descreveria as idéias dos egípcios sobre a vida depois da morte, mas sim o que a alma tem de enfrentar em seu caminho para as profundezas do próprio self. Com isso, os limites entre vida e morte seriam realmente desvendados; a morte nada mais seria do que uma outra forma de vida, e a vida, uma outra forma de morte. Talvez fosse essa a experiência a que era submetido o neófito durante o processo de iniciação.

Seja como for, as expressões individuação e autodescoberta, usadas algumas vezes pela psicologia moderna como sinônimo de iniciação, só refletiriam imperfeitarnente o que na verdade acontece na iniciação ou o que acontecia no antigo Egito; e há algo de que podemos ter certeza: sem a disposição de se arriscar a ganhar ou perder tudo, também hoje não é possível obter uma iniciação. É neste ponto que se decide se alguém se tomará um sábio ou um iniciado.

O outro rumo do esoterismo, o conhecimento, é representado na tradição do antigo Egito pelo nome de Hermes Trismegisto. Segundo a tradição, Hermes Trismegisto é uma figura lendária, semi-deus e semi-homem; é a personificação do principio esotérico no limiar entre a época do antigo império egípcio e o helenismo. No mundo dos deuses egípcios, Hermes Trismegisto nada mais é do que o deus Thot, o deus da sabedoria, o deus que descobriu os hieróglifos, os desenhos sagrados da escrita; ele também elaborou o calendário, mediu o tempo e, sobretudo, criou todos os sistemas de medida existentes, englobando todo o conhecimento do mundo num livro misterioso, chamado Livro de Thot.

As leis herméticas de Hermes Trismegisto podem ser sintetizadas nos princípios fundamentais apresentados abaixo:

- Tudo o que acontece no âmbito superior tem seu correspondente também nos âmbitos inferiores. O que acontece na esfera mais elevada, influencia a esfera inferior; e, ao contrário, tudo o que acontece na esfera inferior é um reflexo daquilo que existe na superior. Resumindo, esse princípio é citado como: "Em cima, como embaixo".

- Tudo no mundo é polar. Isso significa que tudo o que existe se apresenta de duas formas; tudo se acha disponível em dois polos que estão em tensão mútua, como masculino-feminino, positivo-negativo, visível-invisível, e assim por diante.

- Tudo no cosmos é cíclico, rítmico e está sujeito à lei do equilíbrio ou da compensação. São exemplos o batimento cardíaco, a respiração ou a lei da gravidade no universo que faz com que os astros percorram órbitas exatamente calculáveis e que, ao longo dos milênios se enquadraram tão bem que surgiu uma organização perfeitamente reconhecível. Se não houvesse esse equilíbrio, o cosmos há muito teria saído dos eixos e teria sido destruído. A toda atividade corresponde um momento de pausa. A expansão e a contração do coração formam a batida cardíaca; a inspiração e a expiração constituem a respiração. E tudo isso acontece numa certa harmonia; caso contrário, nem poderia funcionar.

Com esses princípios básicos pode-se compreender quase tudo o que diz respeito ao esoterismo.

Bibliografia pesquisada:

"O que é Esoterismo", por Hans-Dieter Leuenberger; Ed. Pensamento