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A Reencarnação, a vida tomando sucessivamente corpos até se elevar a
uma capacidade maior e mais nobre de pensar e sentir - e a Evolução a
ascensão das formas, que se tomam de estrutura cada vez mais complexas, são como que a
mão direita e a esquerda do Grande Arquiteto que modela o mundo. O enigma do universo é
decifrado apenas pela metade, se nos limitamos a examiná-lo à luz de uma só destas
verdades: mas, desde que a consideremos como inseparáveis e se completando, o homem
estará de posse de uma concepção que se desenvolverá à proporção que as suas
exigências aumentarem.
Ainda que seja habitualmente considerada como peculiar à alma humana, a Reencarnação
é, na realidade, um processo que se aplica a toda vida e a todos os seus organismos. A
vida da rosa que morre, volta à sua subdivisão da alma-grupo das rosáceas e
depois se reencarna sob a forma de uma outra rosa; o pequeno cão que sucumbe à doença,
toma à sua alma-grupo canina e mais tarde se reencarna numa outra ninhada, como um
cãozinho. A única diferença, no homem, é que este não volve a uma alma-grupo, porque
é uma consciência individual e separada; quando se reencarna, vem com as faculdades
adquiridas em suas vidas precedentes, sem tê-las diminuído numa partilha com outros
indivíduos.
O uso admitido quer, entretanto, que o termo Reencarnação seja reservado a este processo
quando aplicado às almas humanas, comportando uma ou outra das seguintes significações:
1° - Que no nascimento de uma criança, Deus não cria uma alma para ela; desde muito tempo, esta alma existe como indivíduo, num certo estado espiritual. Por ocasião do nascimento, esta alma toma uma forma humana pela primeira e última vez. Esta é a doutrina da Preexistência.
2° - Que a alma humana já havia aparecido precedentemente sob formas corporais, algumas vezes sob forma humana, porém noutras vezes como animal ou planta; e que, do mesmo modo, depois da morte, esta alma poderá renascer como animal ou planta, antes de tornar a voltar uma vez mais numa forma humana. Esta idéia é mais conhecida pelo nome de Transmigração ou Metempsicose.
3° - Que a alma humana, antes de nascer como criança, já viveu na terra como homem ou mulher, mas não como animal ou planta, a não ser antes do que se chama a individualização (isto é, antes que a alma se tornasse uma entidade individual permanente e consciente de si). E semelhantemente à nascença, depois de um intervalo de vida passado numa condição espiritual, a alma volverá à terra como homem ou mulher, não renascerá mais como planta ou animal. É esta á doutrina da Reencarnação.
A Teosofia ensina que uma alma, uma vez que se individualizou e se
tornou humana, não pode reencarnar-se numa forma animal ou vegetal; e os teósofos atuais
limitam o emprego do termo Reencamação à terceira das acepções acima. Na literatura
teosófica modema, reencarnação não significa renascimento como planta ou animal,
porque se uma tal coisa fosse possível, a evolução da alma nada ganharia com tal recuo.
A alma humana é uma Consciência individual permanente, que vive numa forma ou num corpo
de matéria invisível. Este corpo da alma, composto de um tipo de matéria chamada
matéria mental superior, é conhecido pelo nome de Corpo causal nos estudos
teosóficos modemos. Tem a forma humana, não é do sexo masculino nem do feminino, mas se
parece antes com o anjo das tradições; é rodeado por um ovóide de matéria chamejante;
luminosa e no entanto delicada como os matizes fugitivos de um pôr-do-sol. Esta forma
chamada Augoeides e o ovóide de matéria luminosa que a envolve constituem a morada
permanente da alma, o corpo causal.
Chama-se causal, por serem causados ou criados nesta residência permanente da alma os
melhores impulsos para o pensamento, o sentimento e a ação, em todos os planos de
operações da alma. É neste corpo causal que a alma vive, imortal e eterna. Para a alma,
não há nascimento, infância, velhice nem morte; é uma alma imortal, crescendo no poder
de amar, pensar e agir, à proporção que os séculos se escoam. Vive a sua vida eterna
somente para tomar-se conhecedora de qualquer dependência de vida, por meio das
experiências que adquire, e encontra a máxima felicidade em cooperar no Plano que seu
Pai Divino traçou para a evolução.
O crescimento da alma começa primeiro pela experiência de vida, nos reinos inferiores
àqueles em que se acha a sua verdadeira morada. Para isso se reencarna, isto é :
1° - Ela reúne matéria pertencente ao plano mental inferior e a modela num corpo mental por meio do qual poderá pensar, isto é, traduzir o mundo exterior dos fenômenos em termos de pensamentos e leis.
2° - Congrega matéria astral e a modela num corpo astral, pelo qual poderá sentir, isto é, traduzir o mundo fenomenal em termos de emoções e desejos pessoais.
3° - É-lhe fornecido um corpo físico apropriado, pelo qual poderá agir; usando-o, traduz o mundo em termos de propriedades físicas: pesado ou leve, quente ou frio, móvel ou imóvel e outros.
O processo de revestimento destes três corpos pela alma é que se chama
Reencarnação. No decurso da vida do corpo físico, cada uma das vibrações às quais os
nervos respondem ocasiona a princípio, no cérebro, uma reação sensorial; esta reação
é então notada pelo corpo astral como agradável ou desagradável; o corpo mental nota
em seguida a impressão do corpo astral e a traduz em pensamento; este pensamento é
finalmente percebido pela alma no corpo causal. A alma envia então através do corpo
mental ao corpo astral, e deste ao cérebro físico, sua resposta ao fenômeno do mundo
físico. Em todo momento em que funciona a consciência, há esta intercomunicação
telegráfica com o corpo causal. Depois que um grande número de idéias foi assim
adquirido, a alma as analisa, coordena e, por generalizações, tira das experiências de
vida ideais de pensamento e de ação. Transmuta assim o mundo fenomenal em conceitos e
temos que então se tomam parte dela.
O processo inverso da Reencamação, chamado Morte, não origina nenhuma modificação no
corpo causal. Em primeiro lugar, o corpo físico é posto de lado e os fenômenos físicos
não dão mais ensejo a nenhuma resposta, porém a alma está ainda de posse do corpo
mental e do corpo astral. O corpo astral é em seguida posto de parte, os fenômenos
astrais não solicitam mais a atenção e a alma só observa o mundo, do plano mental
inferior. Por último, o corpo mental é rejeitado, a alma está inteiramente no corpo
causal e não possui mais veículos inferiores. Por assim dizer, retomou outra vez à sua
morada, se bem que, em realidade, nunca a haja deixado totalmente ; apenas focalizou uma
fração de consciência e de vontade através de veículos de matéria inferior, e a isso
denominam os homens Reencarnação. Serviu-se de diversos veículos durante um certo tempo
e quando não teve mais necessidade deles colocou-os novamente de lado.
O que denominamos vida e morte é para a alma apenas a emissão de algo de sua
consciência para os planos inferiores, e depois a sua recondução, de novo, ao plano
superior.
O método de estudar as leis da Reencamação consiste em observar como as almas nascem em
corpos físicos, como neles vivem, como os deixam com a morte, corno posteriormente se
libertara de seus corpos astral e mental e, finalmente, como se encontrara na plenitude de
seu ser, no corpo causal. Todas as particularidades deste processo são registradas na
Memória do Logos e o investigador que estiver em condições de pôr-se em contato com
esta Memória pode examinar as sucessivas reencarnações de qualquer alma.
É por este método que se fizeram certas investigações e se coligiram fatos já
suficientes para a dedução de leis. O fato mais importante da Reencarnação é que as
suas leis diferem para os diversos tipos de almas.
As almas, numa dada época, não são todas dotadas da mesma capacidade, pois umas são
mais velhas que as outras. O fim da reencarnação é permitir a uma alma tornar-se mais
sábia e melhor após as experiências de cada encarnação; mas se observa que, enquanto
uma alma é capaz de aprender rapidamente, de uma experiência, outra aprenderá muito
lentamente e repetirá muitas e muitas vezes a mesma experiência. Tal diferença na
capacidade de assimilar experiências é devida à desigualdade de idade das duas almas.
As almas mais jovens são incapazes de dominar a impetuosa e rude natureza do desejo, e
desprovidas de capacidades mentais. Na época presente estas almas aparecem nas raças
selvagens e semicivilizadas e também nas comunidades civilizadas, nos indivíduos
atrasados e criminosos natos. Como almas um pouco mais evoluídas, e por conseguinte mais
velhas, encontram-se as que ultrapassaram o período selvagem, porém são ainda pouco
inteligentes, carecem de imaginação e de iniciativa. Estas duas classes compreendem mais
de nove décimos da humanidade.
Vêm em seguida as almas mais avançadas e mais civilizadas de todas as raças. São
aquelas cujo horizonte intelectual não é limitado pela família ou pela nação, que
anelam uma perfeição ideal e se esforçam conscientemente por consegui-la. Menos
numerosas ainda são as almas que descobriram que a significação da vida é o
sacrifício de si mesmas e a consagração ao serviço; as almas que estão e amoldam
conscientemente o seu futuro. E como flores raras de nossa árvore humana, encontramos os
Adeptos, os Mestres da Sabedoria, estes poderosos Irmãos mais velhos da Humanidade que
são os Reflexos de Deus na terra e permanecem guiando a evolução segundo o Plano da
Divindade.
A Lei geral quer que, depois da morte do corpo físico, a alma passe por um breve período
de vida no plano astral; em seguida, após ter abandonado o corpo astral, permanece
vários séculos no mundo mental inferior. Este mundo mental inferior é o Céu inferior
(chamado muitas vezes Devacã na literatura teosófica), e nele a alma revive as
aspirações da vida terrestre, mas agora na plenitude de toda a felicidade almejada.
Passam-se séculos assim, numa feliz atividade, até que as forças das aspirações
espirituais se esgotam e a alma despe o seu corpo mental. Terminou então esta
encarnação e está em seu corpo causal com todas as experiências transmutadas em ideais
e capacidades. Mas, como tem ainda muito que fazer para atingir a perfeição, mais uma
vez se reencarna, revestindo-se de três novos corpos: o mental, o astral e o físico.
A vida sem a chave da Reencarnação é, em verdade, um drama estranho e selvagem, como o
pareceu uma vez a Tennison, a desperto de sua fé cristã. É um processo cruel a
Evolução, solícita com a espécie e descuidosa com a vida isolada. Mas concordai que a
Vida, indestrutível e imortal, evolui também, e então o futuro de cada indivíduo se
mostra sob cores brilhantes.
À luz da Reencarnação, a Morte perde o aspecto doloroso e o sepulcro é a vitória; os
homens caminham incessantemente para a deificação, de mãos dados com os que amam, sem
temor de separação. A moralidade é apenas um papel que a alma desempenha durante certo
tempo; terminado o papel, depois de vividas todas as vidas e de mortas todas as mortes, a
alma começa a sua carreira como Mestre de Sabedoria, como Reflexo de Deus na Terra, como
o Verbo feito come.
Tal é para nós todos, selvagens e civilizados de hoje, o futuro que nos espera, a
glória que nos será revelada.
Bibliografia utilizada:
"Fundamentos de Teosofia", por C. Jinarajadasa; Ed. Pensamento.