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O Santo Graal é geralmente considerado como a taça com a qual Cristo instituiu a Eucaristia na Última Ceia e usado por José de Arimatéia para recolher seu sangue proveniente das feridas provocadas por ocasião da crucificação, em especial aquela ocasionada pela lança do centurião romano que a tradição apócrifa chama por Longino ("Ao chegarem a Jesus, vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados perfurou-Lhe o lado com uma lança e logo saiu sangue e água" - João19:33-34). A Igreja Católica não dá ao Graal mais do que um valor simbólico e acredita que não passe de literatura medieval, apesar de reconhecer que alguns personagens possam realmente haver existido.
A lenda do Graal e seu significado parece ter sido introduzida por Robert de Boron em seu poema Joseph dArimathie -também chamado de Le Roman de lEstoire dou Graal, o qual foi provavelmente escrito nos fins do século XII, mas sua lenda já era conhecida desde o princípio da Idade Média com diferentes versões. Nas narrativas medievais posteriores, o Graal não se refere apenas a um cálice mas também a uma esmeralda da coroa de Lúcifer com a qual foi esculpida uma taça poderosa, como é contado no romance Parzival de Wolfram von Eschenbach (1170-1220) ou a um conjunto de utensílios (taça e bandeja) como refere Chrétien de Troyes (1135-1189(?)). Aqui vemos representados elementos considerados sagrados pelas diversas tribos celtas que habitaram as atuais França e Inglaterra, donde se depreende que, provavelmente, em suas origens, estejam vestígios de antigas tradições não-cristãs. Nesse sentido, objetos poderosos como caldeirões, vasos ou pedras são também comuns em lendas e tradições religiosas como a egípícia, grega ou islâmica.
O termo Graal vem do latim "Gradale", que significa um prato trazido à mesa durante os vários estágios de uma refeição. A imagem do cálice, contudo, foi popularizada por escritores tais como Troyes e Sir Thomas Malory (1405-1471)em seu Morte D'Arthur.
Em outro sentido, foi reivindicado que o Graal não seria um objeto físico de qualquer tipo mas a própria linha de sangue dos descendentes de Jesus que nasceram de um suposto casamento com Maria Madalena e que teriam sido levados até as Ilhas Britânicas ou França por José de Arimatéia, seu tutor. Daí, o nome Santo Graal, seria uma corruptela da língua francesa "Sang Real"(sangue real) e desses descendentes, teriam sido originárias várias casas reais da Europa como os dAnjou e os Merovíngios, pois o próprio Jesus descendia da linhagem real de David. Modernamente, a própria Psicologia, através dos estudos de Marie Louise Von Franz, Carl e Emma Jung, procuraram associar ao mito do Graal, dentre tantos significados possíveis, a representação da auto-realização através de uma metáfora. Para eles mesmo que nos contos do Graal estejam o reflexo de uma época, seus símbolos são atemporais e arquetípicos, portanto relevantes hoje e em qualquer momento. Suas histórias expressam de forma vigorosa a jornada psicológica em busca da totalidade, da Individuação.
Como se pode perceber, as histórias e narrativas do Graal nos são transmitidas através de diferentes tradições, uma das quais provém da cultura anglo-saxônica, que em si, encerra fortes influências célticas. Nesta, o rei Artur e os cavaleiros da sua Távola são o ponto central. O Graal seria, no entanto, uma transformação do símbolo do Caldeirão Mágico de Ceridwen capaz de ter transformado em poeta o jovem Taliesin que nele caíra e morrera afogado. Também é um caldeirão mágico no qual são introduzidos os mortos que dele saem ressucitados, embora desprovidos de fala para que não revelem os segredos do Além. De forma semelhante, os Cavaleiros da Távola redonda ficaram sem fala quando a maravilhosa imagem do Graal se manifestou diante deles. Seria possível também reconhecer que aqui é trazido o tema das Ordens Iniciáticas, vista de uma perspectiva das Novelas de Cavalaria, permitindo várias associações com a Ordem dos Templários, formada em sua maioria por monges guerreiros e que exerceu grande influência na Europa e na Terra Santa desde sua fundação em 1118 até a sua violenta extinção pela Igreja em 1314 . Por exemplo, Eschenbach cita em seu romance um grupo de cavaleiros valorosos, os Templeisen que seriam os guardiões do Graal e do templo no qual estava guardado. Por essa razão, diz-se que esta Ordem seria a guardiã do Graal e de outras preciosas relíquias ou que pelo menos estivesse envolvida na sua busca, além de ter sido possivelmente a precursora de sociedades secretas como a Maçonaria.
Do ponto de vista histórico e literário, as primeiras narrativas escritas do Drama do Graal e do Ciclo Arturiano se relacionam com o período das Cruzadas onde se tenta o domínio da Terra Santa- Jerusalém- e lá são procuradas de diversas relíquias referentes ao período da vida e morte de Jesus. Já as últimas narrativas foram escritas numa época em que as Ordens de Cavalaria já entravam em um período de decadência, e Graal passa a representa o sonho de salvação de reinos que se encontravam em crise e de outros que se afirmavam.
Em outro sentido, é bastante evidente que o mito do Graal oculta um verdadeiro Mistério Esotérico que até os dias de hoje ainda não foi total e plenamente decifrado. Podemos partir do ponto de vista de que o mito do Graal não é assim tão simples, mas que por trás dele existe uma vontade que determina a sua direção. Algumas correntes esotéricas referem que os Cátaros ou Albigineses, grupo religioso considerado herege pela Igreja Católica na Idade Média, detinha as chaves para se conhecer os mistérios que encerram o Graal e que inclusive o tinham em mãos. Nesse aspecto, diante da catástrofe que os atingiu- ou seja a perseguição e aniquilamento por parte da Santa Inquisição em 1244- os segredos esotéricos tinham de ser congelados, hibernando pelos próximos séculos de trevas, até que chegue o momento oportuno; quando a humanidade estará madura para a total revelação. Exotericamente, o Graal contém e representa o conhecimento iniciático que é passado de geração em geração.
No Tarot, o Graal estaria representado no símbolo de Copas ou Cálice e seus Arcanos Menores: rei, rainha, dama, valete e cavaleiro. O significado oculto seria o sentimento e a capacidade de absorver, compreender, aprofundar a vida que estabelece uma profunda ligação com o coração. É quando o ser humano se une ao outro, cria, refloresce e descobre que a vida é a própria Fonte da Juventude.
Uma coisa é certa: apesar de (ou talvez por causa de) suas qualidades, o Graal atraiu e continua atraindo uma grande fascinação prometendo mistério, segredo, aventura e um prêmio ou conhecimento disponível para aqueles que queiram encontrá-lo. Não obstante, todos os comentaristas se mostram de acordo quanto ao tratar-se de algo profundo , cuja busca merece o sacrifício (sacro-ofício) e dedicação de uma vida inteira, mesmo se sabendo que tal procura busca possa ser infrutífera. Se examinarmos as diferentes narrativas um pouco mais profundamente, notaremos algumas evidências do Graal como conhecimento, uma meta espiritual que representa a iluminação e a plenitude interior, objetivos de todos os místicos.
Texto compilado por Luiz Paulo e Alexei Bueno
Bibliografia pesquisada:
O SANTO GRAAL- John Matthews, Edições DelPrado,1997
A LENDA DO GRAAL- Emma Jung e Marie Louise Von Franz-Cultrix, 1994
REX DEUS- Marilyn Hopkins, Graham Simmans e Tim Wallace-Murphy, ed. Imago2000
OS TEMPLÁRIOS- Piers Paul Read, ed. Imago, 2001
PARCEVAL ou O ROMANCE DO GRAAL- Chrétien de Troyes- ed Martins Fontes,1992