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Existe continuidade perfeita na vida astral, muito mais real em inúmeros sentidos, do que nesta, ou pelo menos muito mais próxima da realidade, e a existência física é apenas uma série de interrupções feitas nela, durante as quais a nossa atividade é bastante limitada e a nossa consciência apenas parcialmente operativa. Para a maior parte dos homens, nesta vida inferior, a noite se afigura um espaço vazio, e, pela manhã, não nos lembramos de nada do que fizemos; não devemos, por isso, supor que somos igualmente densos no plano astral. Essa consciência mais ampla o inclui plenamente, e todas as noites nos lembramos, com clareza, não só do que fizemos nas noites precedentes, mas também de tudo o que fizemos nos dias intermediários.
O cérebro físico é obtuso e obstinado, e, por ocasião do nosso regresso a ele, perdemos a memória de tudo, exceto daquilo com que ele esteve diretamente ocupado. A vida astral é muito mais vívida e suas emoções são muito mais fortes do que qualquer outra que conhecemos aqui embaixo. Aquilo a que, de ordinário, damos o nome de emoção é apenas um fragmento, relativamente pequeno, da emoção que subsiste depois que a maior parte dela se exauriu, pondo em movimento as desajeitadas partículas físicas, de modo que não é difícil perceber o quanto há de ser mais intensa e real a outra vida.
É preciso fazer um elo especial, ou melhor, é preciso remover um obstáculo, a fim de salvar a lembrança da vida e fazê-la entrar no cérebro físico. No curso lento da evolução, a força da memória perfeita chegará a todos, de modo que não haverá nenhum véu entre os dois planos. À parte o desenvolvimento pleno, ocorre, às vezes, alguma coisa que o homem sente que deve recordar no plano físico, e, nesse caso, faz um esforço especial para gravá-la no cérebro, com o intuito de poder rememorá-la na manhã seguinte. Existem, também, alguns eventos, causadores de tão vívida impressão sobre o corpo astral, que se imprimem no cérebro físico por uma espécie de repercussão.
É relativamente raro, entretanto, que tal impressão seja perfeita, e a imperfeição pode ter muitas etapas. Esta é uma das fontes dos chamados sonhos, e todos sabemos o quanto eles podem ser, freqüentemente, confusos, incompletos e até ridículos.
Às vezes, nada se passa que se possa chamar uma lembrança real, mas apenas o efeito de alguma coisa vista ou acontecida. O homem desperta, de manhã, com uma forte sensação de alegria e triunfo, sem ser capaz de lembrar-se do que sucedeu. Isso geralmente significa um bom trabalho realizado, mas, às vezes o homem não consegue recordar-se de todos os pormenores. Em outras ocasiões, ele traz de volta consigo um sentimento de reverência, uma sensação de grande santidade. Isso significa, de ordinário, que ele esteve em presença de alguém muito maior do que ele, ou teve alguma prova direta do poder maior. Às vezes, por outro lado, a pessoa desperta com um sentimento de medo terrível. Isso só se deve ao alarma do corpo físico diante de alguma sensação desusada; mas deve-se também, não raro, ao encontro com algo horrível no mundo astral que se acha em estado de terror, pois é freqüente no plano astral ser uma pessoa vigorosamente influenciada pela simpatia que vota à situação de outrem.
Quando estão no corpo astral, porém, poucas pessoas se preocupam com o fato de que o cérebro físico se lembra ou não, e a nove entre dez delas desagrada regressar ao corpo. Mas se o leitor deseja especialmente adquirir o hábito de rememorar, recomendo-lhe o processo seguinte:
Para estabelecer o elo, lembre-se, em primeiro lugar, quando estiver fora do corpo, de que você deseja fazê-lo. Em seguida, decida regressar ao corpo lentamente, em vez de fazê-lo com uma arremetida e um movimento abrupto, como costuma acontecer. É o movimento abrupto que impede a pessoa de lembrar-se. Detenha-se e diga, logo antes de acordar:
"Ali está o meu corpo; estou prestes a ingressar nele. Assim que eu estiver dentro dele, fá-lo-ei sentar-se e anotar tudo o de que possa lembrar-se."
Em seguida, entre nele calmamente, sente-se logo em seguida e escreva tudo o que puder recordar imediatamente. Se esperar alguns minutos, tudo se perderá. Mas cada fato que você apresenta servirá de elo para outras lembranças. As notas podem parecer meio incoerentes quando as lemos depois, mas não se incomode com isso; você está tentando fazer um relato, com palavras físicas, das experiências de outro plano. Dessa maneira, recuperará, pouco a pouco, a lembrança, conquanto isso possa levar muito tempo; é aí que entra uma grande paciência.
Você deve tentar recordar-se, quando estiver fora do corpo, de que está no mundo astral, e que seria um conforto para a consciência física se alguma lembrança pudesse ser trazida desse mundo. Seja sistemático em seus esforços. Todas as vezes que conseguir trazer de lá alguma coisa, ser-lhe-à mais fácil rememorar da próxima vez, e se tomará mais próximo o período em que será habitual a recordação automática. Atualmente existe um momento de inconsciência entre o dormir e o despertar, que funciona como um véu. Isso é causado pela teia, estreitamente tecida, de matéria do sub-plano mais elevado, através do qual têm de passar as vibrações.
Ao regressar ao corpo físico, quando voltamos do mundo astral, experimentamos uma sensação de grande constrangimento, como se estivéssemos sendo envolvidos num casaco grosso e pesado. A alegria de viver no plano astral é tão grande que a vida física, em comparação com ele, não parece vida de espécie alguma. Muitos homens, capazes de funcionar no mundo astral durante o sono do corpo físico, não raro comparam o retomo diário ao mundo físico à jornada cotidiana para o escritório. É possível que não a abominem, mas a verdade é que não a fariam se a isso não fossem compelidos.
Quando o homem está livre no mundo mental, a vida astral parece-lhe igualmente um estado de servidão, e assim de plano em plano, até alcançar o mundo búdico, que é - na essência - a bem-aventurança. Depois de atingir esse nível, o homem, embora no plano físico ainda seja limitado e incapaz de expressar a bem-aventurança, tem-na sempre, apesar de tudo, e sabe que todos os outros, incapazes de senti-la agora, a sentirão e conhecerão em algum momento futuro. Mesmo que estivéssemos, apenas por um momento, aptos a sentir a realidade dos planos mais elevadas, nossa vida nunca mais seria a mesma.
Os prazeres astrais são muito mais intensos que os do mundo físico, e existe o perigo de serem as pessoas desviadas, por eles, do caminho do progresso.
Após a morte, devemos tentar passar pelos níveis astrais o mais depressa possível, de maneira compatível com a utilidade, e não ceder aos prazeres requintados mais do que cedemos aos prazeres físicos. Cumpre-nos não superar o desejo físico pelo conhecimento do astral ou da vida celeste mas também ir além deles, não só por amor da alegria da vida espiritual, como até mesmo para substituir o fugaz pelo perene.
Bibliografia utilizada:
"A Vida Interior", por C.W.Leadbeater; Ed. Pensamento